A força da mística

Por Antônio Claret Fernandes, escritor, militante do MAB e padre da Arquidiocese de Mariana Pouco a pouco a Arena Mariana acorda, entre o cansaço da Marcha, desde Regência, no Espírito […]

Por Antônio Claret Fernandes, escritor, militante do MAB e padre da Arquidiocese de Mariana

Pouco a pouco a Arena Mariana acorda, entre o cansaço da Marcha, desde Regência, no Espírito Santo, e a expectativa de chegada a Bento Rodrigues. É o quinto dia, quatro de novembro.

Todo mundo sente um apertozinho no coração. Faz um ano de lama e, até agora, a empresa promete casas dos moradores de Bento Rodrigues e Paracatu para 2019. Além disso, quer inundar Bento, com o Dique Quatro, em construção.

A Samarco age como o bandido que entra na casa, rouba, mata, destrói tudo, depois volta com um Decreto na mão para apagar as marcas do crime. Algumas autoridades se comportam feito cães de guarda vadios que, ao invés fiscalizar as empresas, ou mesmo enxotá-las, babam aos seus pés, lambem-nos e as protegem.

Na Arena, a indignação se faz movimento. Colchões espalhados nas arquibancadas mexem-se e, no lusco-fusco da quadra, pessoas transitam nas várias direções. Boa parte vai a um dos vários banheiros existentes. E muitos, com sua higiene matinal pronta, se dirigem ao café.

Há quatro cozinhas, onde se servem lanches e refeições. Duas são de Minas Gerais, uma de São Paulo e uma do Espírito Santo. A alimentação é muito farta e, as filas, muito pequenas.

O básico – carne e arroz, por exemplo – é o mesmo, tudo partilhado, cada região, porém, acrescenta o que lhe é típico, em especial o modo de fazer e o sabor.

Um que outro, criativamente, na hora da refeição, passa de cozinha em cozinha, buscando sabores novos.

As luzes internas, que se ascendem depois das seis horas, iluminam os cantos da quadra, aonde a claridade externa não consegue chegar. E onde, em geral, se concentram os que dormem mais um pouquinho.

Com a claridade em toda a quadra, então, se pode ver o colorido da Arena, e sua lindeza: faixas, cartazes, bandeiras, mas, principalmente, as pessoas em marcha. 

O Encontro do MAB, no coração da mineração e no epicentro de um processo criminoso, com seu ápice no dia 5 de novembro de 2015, é um sinal de contradição. Quantos aplaudem o Movimento pela sua perspicácia e coragem, mas muitos, lá fora, nas ruas e nas redes sociais, buscam deslegitimá-lo, claramente incomodados.

Os participantes, distribuídos em equipes, cuidam dos mais diversos afazeres, na organicidade do Encontro. Diante de uma tarefa imediata maior, como a retirada das centenas de cadeiras da quadra, muitas dezenas de mãos ligeiras se espalham por todo lado e, em poucos minutos, o espaço está livre.

No palco, inicia-se o serviço de som, alternando-se músicas de animação e mensagens de luta, e, vez por outra, chamam-se nomes. Por fim, toda a Arena é convocada a estar presente para início das atividades.

Na cabeça de muitos, estão cenas da noite anterior. Guardas municipais – a mando sei lá de quem – entram, por volta de vinte e três horas, sem autorização do Movimento, à procura de bebida, mas não encontram nada. E, em Barra Longa, a empresa pinta a grama da Praça Manoel Lino Mol na noite do dia 29 de outubro para entregá-la, verdinha, no domingo. É claro que a farsa foi descoberta.

A notícia pior, porém, ainda estaria por vir: a invasão da Florestan Fernandes! Dez viaturas, policiais armados, truculentos, procurando uma pessoa que não estava nem era de lá.

A questão é que ditadores morrem, mas seus fantasmas não. E como  rondam por perto! Na Coletiva do Enem, domingo à tarde, o personagem principal  é, curiosamente,  o delegado da Polícia Federal. Com incomum desembaraço, ele conta dos trabalhos da PF junto ao Ministério de Educação.

A democracia no Brasil, embora muito nova, está caducando. A condição para seu rejuvenescimento é a participação popular. Alguns até pensam que, ao invés de a Redação do Enem abordar a intolerância religiosa, um desvio de foco, ela deveria trazer o tema ‘o que vamos fazer com essa tal liberdade’.

Ouve-se música: um som suave, de fundo. Corpos, muitos corpos, em coreografia, apontam na saída da quadra e vão avançando, avançando, até o centro, formando um corpo coletivo em movimento.

A música, aos poucos, torna-se ensurdecedora, barulhenta, irritante. As pessoas tapam o ouvido, tremem, tremem, caem e ficam estiradas ao chão.

Mas um sopro de vida, que chega ao ouvido de uma participante, vai se disseminando, erguendo cada corpo caído, até formar o corpo coletivo de novo, que se espalha ao longo de toda a quadra, imensa, juntando-se às centenas de pessoas presentes, formando um grande círculo.

Agora todas e todos fazem parte dessa mística. Agora ela perpassa tudo, desde Regência, em cada ação pela unidade na luta, em cada peixe morto, em cada sonho de vida, até Bento, em suas ruínas que gritam, em seus moradores que afinam o tom da voz em movimento, até cada ação em defesa da vida na Bacia do Doce, até o Xingu, até todo lugar do mundo, onde a luta se faz presente. Pois a mística é condição da persistência e da conquista da liberdade.

A consciência desperta se expressa em frases, ditas e repetidas, entre as quais ‘somos rio, somos muitos, somos fortes’.

Através de gestos, camponeses carpem, pescadores lançam suas redes, o trabalho mostra sua força na transformação da natureza, na produção de toda riqueza acumulada, e se revive a memória do povo na labuta do dia a dia.

A Arena inteira, contagiada por essa energia popular, com participação de pessoas de diferentes regiões do Brasil e de outros países, bate o pé, canta, grita, pula, dança, rebela-se, coletivamente, e mostra, na simbologia, o que um povo organizado é capaz de fazer na realidade. E o anima.

 Os capitalistas costumam fazer belas representações, que até chamam de mística, mas que não passam de caricaturas. Precisam pagar e receber pra rir, pra chorar, pra rezar. A mística mesmo, no seu sentido mais próprio, é só de quem luta pra ser livre na vida. Mais que momento, ela é combustível necessário no cotidiano, especialmente em tempos de ofensiva dos opressores.

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