Trabalho no Tapajós: para o povo ser protagonista

Militantes do MAB debatem resistência e organização com famílias ameaçadas pelas hidrelétricas de São Luiz do Tapajós e Jatobá. As atividades também são parte da preparação para o Encontro Nacional. […]

Militantes do MAB debatem resistência e organização com famílias ameaçadas pelas hidrelétricas de São Luiz do Tapajós e Jatobá. As atividades também são parte da preparação para o Encontro Nacional.

Foto: Fernanda Lingabue

Suas águas são o resultado da confluência entre os rios Juruema e São Manuel (ou Teles Pires) no estado do Mato Grosso, onde inicia o percurso de 851 quilômetros até Santarém, no Pará, para desaguar no rio Amazonas. O Tapajós é o último grande rio da Amazônia brasileira que ainda não foi barrado para a geração de energia ou que sofreu intervenções de grandes empreendimentos para facilitar a navegação.

A beleza de suas praias no período do verão e a impetuosidade de suas águas durante o inverno Amazônico esconde riquezas que tem atraído a cobiça de grandes corporações internacionais. Apoiados integralmente pelo Estado brasileiro, elas se dirigem para esta região do oeste do Pará no intuito de encontrar aqui a última grande fronteira para a exploração de bens naturais na Amazônia.

Abundância de ouro e outros minerais; imensas áreas de floresta preservada com uma rica e rara biodiversidade; muito espaço para o avanço do agronegócio, sobretudo da monocultura de soja; águas que podem virar um imenso e lucrativo corredor de transporte, além de grande potencial para a geração de energia hidroelétrica. Tudo isso pode se tornar uma rentosa fonte de lucros tão necessários para este período de crise sistêmica do capitalismo.

Enquanto as empresas avançam sobre estas riquezas, que deveriam pertencer ao povo, a população atingida no campo e na cidade enfrentam o descaso, a desinformação, o desrespeito aos direitos básicos e a total falta de perspectiva sobre o futuro que os aguardam.

MAB avança no diálogo com as comunidades

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) tem tido especial atenção com as milhares de famílias ameaçadas pela construção das sete hidrelétricas prometidas para a região. Somente São Luiz do Tapajós e Jatobá devem atingir cerca de 2 mil famílias. Por isto, entre os dias 28 de maio e 03 de junho um grupo de militantes enfrentaram as águas caudalosas do Tapajós e subiram o rio visitando comunidades entre Pimental, que deve ser destruída para ser o canteiro de obras de São Luiz, e Machado, onde poderá ser o eixo da barragem de Jatobá.

A beleza admirável do Tapajós emana da densa floresta preservada pelo Parque Nacional da Amazônia que margeia o rio e pelo esforço dos moradores que há mais de um século moram nesta região, descendentes dos “soldados da borracha” vindos desde o início do século XX.

Na subida de mais de 120 quilômetros conversamos com moradores da comunidade Palhal, das aldeias munduruku Boa Fé e Sawré Maybu, das localidades Guabiraba, Jatobá e Machado, além do contato com famílias dispersas que vivem na beira do rio há décadas. No retorno, reunimo-nos na Vilhinha, onde as 10 famílias reafirmaram serem totalmente contra as barragens com disposição de construir a luta em defesa do Tapajós.

“Para nós é um desastre muito grande. Vivemos do peixe e de tudo o que este rio nos dá para sustentar nossa família. Não temos estudo nem preparação para morar na cidade nem vamos nos adaptar por lá. Onde é que eles vão botar o povo?” questiona Ezequiel, morador que resume a angustia da maioria da população que não quer sair do lugar onde nasceu, foi criado e formou família.

E como vai ficar o João Guabiraba?

Além de reuniões e conversas com os moradores, buscamos conhecer o sentimento do povo, como vivem no seu dia-a-dia, o que pensam sobre o futuro, como celebram sua fé, como se relacionam com a floresta. Entre as muitas histórias surpreendentes que encontramos está a do João Guabiraba.

O povo conta que no tempo da borracha um jovem chegou para trabalhar em terras de um poderoso coronel. Era querido por todos por ser humilde, ordeiro e trabalhador. Certa vez, uma doença muito grave tomou seu corpo a tal ponto de ninguém conseguir chegar perto. As ordens do patrão foram de abandoná-lo em algum ponto do morro. Lá o deixaram e foram trabalhar em uma ilha próxima. Quando voltaram, acharam somente seus restos dentro da rede.

Neste mesmo lugar enterraram João. Ao longo de muitas décadas ali se tornou um local de peregrinação de curiosos e devotos. Guabiraba virou um “santo católico” que guarda grande respeito do povo. Todos têm uma história de promessa atendida por este santo do povo. Na “capela” erguida está uma imagem de cimento de mais de um metro cercada por centenas de peças de roupas e objetos de madeira que mostram o poder da fé no João Guabiraba. “Desde que falam desta barragem a gente fica assustado porque não sabe nada do futuro. E como vai ficar o João Guabiraba? Onde vamos colocar ele?”, questiona Seu Lázaro, morador que cuida da capela.

“O MAB não abre mão de ter este contato direto com o povo. O trabalho de base é fundamental porque torna este povo, atingido pela cobiça do Capital, protagonista do seu próprio futuro. Aqui não existem representantes, existem sujeitos. Agora, para ser protagonista, é preciso reconhecer a própria história, ter acesso às informações para exercer os direitos e estar disposto para defender a sua história, a sua cultura e construir um futuro melhor pela luta e pela organização”, afirma Fred Rênero, membro da coordenação do MAB.

Rumo ao Encontro Nacional

            O trabalho de base que busca reunir o povo para fortalecer a luta contra as barragens também está inserido na mobilização para o Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens a ser realizado em São Paulo entre os dias 02 e 05 de setembro. Um momento histórico que reunirá campo e cidade para debater “Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular, comemorar as muitas vitórias em mais de 20 anos de luta e avançar na conquista de uma Política Nacional dos direitos dos atingidos fortalecendo a construção de um Projeto Energético Popular que coloque nossos recursos naturais a serviço do povo brasileiro.

            “O MAB no Tapajós estará no Encontro Nacional mostrando o rosto desta região que resiste para preservar este grande patrimônio do povo brasileiro e estamos animando as comunidades e organizações para construirmos as condições para tal. Será muito importante mostrar para o Brasil que aqui há muita gente, no campo e na cidade, que não concorda com este modelo e que também quer outro projeto para o país que contemple a soberania dos povos na Amazônia”, afirma Cleidiane Santos, membro da coordenação nacional do MAB. 

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